domingo, setembro 03, 2017

CONFIANÇA...

Ela (com os olhos muito abertos, de um azul-marinho-tipo-praia-d'Laginha-da-minha-terra-Soncent, inseridos numa cara cuja pele necessitava urgentemente de ser passada a ferro e com tanta maquilhagem que assustaria qualquer um num cenário menos iluminado):
- Sapatos bonitos...
Ele, com cara de "wtf" e a cabeça já a trabalhar a mil:
- Ahhh... Muito obrigado...
Ela:
- Outra coisa: já reparei que gosta de combinar a cor dos sapatos com peças do seu vestuário.
Ele, desta vez com cara de WTF maiúsculo mesmo:
- Sim... E?...
Ela, cada vez mais confiante:
- É que hoje não vejo onde está a combinação...
Ele, maroto:
- Não quer adivinhar?
Ela, de sorrisinho malicioso no canto da boca:
- As cuecas???
Ele:
Não... O cinto...

Lisboa

1/09/2017

A BARRIGA NÃO DEIXA...

Ela e ele, no escuro de uma pista de dança cheia de gente, numa discoteca, no suave embalo de um semba descomplicado, ela agarrada ao pescoço dele, ele de braço esquerdo estendido, na mais irrepreensível pose vintage de dança, quando de repente...
Ela dá-lhe um aperto no pescoço, puxa-o para si e sussurra-lhe ao ouvido:
- Aperta-me mais... cola-te a mim...
Ele, de sorriso maroto no canto da boca, aproxima-se do ouvido dela e diz-lhe, com volume qb para sobrepor à música:
- A barriga não deixa...


Lisboa

18/08/2017

segunda-feira, março 31, 2014

Ao Gabinete de Apoio à Crise.




Excelentíssimos Senhores

A propósito da Gala Solidariedade sem Fronteiras, realizada a 3 de Março passado, cujo cartaz é apresentado como vossa foto de capa desta página, vimos por este meio dar a conhecer o seguinte:

Aquando dos contactos iniciais, foi-nos pedida a máxima colaboração possível. Foi-nos pedida a maior compreensão possível, foi-nos pedido que mergulhássemos o mais profundamente possível no espírito de solidariedade e ajuda, razões nobres de mais alto nível que alicerçavam a realização da desta Gala.

E assim fizemos. Dentro dessa filosofia, aceitámos a responsabilidade de organizar a nível musical, o espectáculo pretendido.

Desde muito cedo ficou bem claro que os responsáveis pela organização deste evento pouco ou nada percebiam disso mesmo, pois a desordem, a falta de conhecimento, enfim, a desorganização foram gritantes, ao longo de todo este processo.

Os músicos e cantores convidados a participar, foram literalmente mal tratados, a ponto de não haver sequer um garrafa de água nos camarins. O catering obrigatório, passou de zero a um mísero pires com uns pastéis de milho, após inúmeras reclamações e quando já o evento se encontrava na recta final.

A falta de respeito pelos responsáveis dos diversos sectores do evento foi algo que muito cedo se notou. O passar por cima, o ignorar decisões, o fazer valer a sua posição, foi também algo que notámos assim que chegámos ao Cinema S. Jorge.

Não obstante, cumprimos com as nossas obrigações e na parte que nos toca directamente e à banda musical dirigida por nós, não há um único dedo a apontar.

Volvidos já mais de 30 dias desde o início deste processo, infelizmente continuamos a notar a mesma falta de respeito por nós, pelos nossos colegas de trabalho, pela nossa profissão e pelo trabalho efectuado.

É de bradar aos céus a forma desrespeitosa como temos vindo a ser tratados no que toca ao recebimento das remunerações a que temos direito. Fazer-nos passar por lerdos e atrasados mentais é seguramente a forma mais vil e dolosa que este Gabinete pode ter escolhido como forma de actuação.

Telefonemas rejeitados, desculpas de mau pagador, tentativas de nos passar atestados de burrice têm sido o pão nosso de cada dia e, dado que pelos meios normais não nos tem sido possível, decidimos utilizar outros meios, quiçá, pouco ortodoxos, envolvendo, inclusive, o Sindicato dos Músicos, como forma de pôr fim a toda esta novela de muito má qualidade.

E para que conste, estão igualmente envolvidos e a partir desta data, advogados que irão seguramente tratar desta questão.

Lisboa, aos 31 de Março de 2014

Paulo de Figueiredo
Músico/Produtor Musical
Director Musical da Gala Solidariedade Sem Fronteiras

Para que tomem conhecimento:

Kalu Ferreira
Ivan Gomes
Nir Paris
Antonio Barbosa
João Bengala
Ana Firmino
José Afonso


In: https://www.facebook.com/gabinetedeapoio.crise

sábado, fevereiro 01, 2014

sábado, julho 06, 2013

E HÁ QUARENTA ANOS ACONTECEU ASSIM:

De requinta com selo Baptista ao peito, voz afinada e coração aos pulos, subi ao palco do pátio da Escola Grande, na Cidade da Praia, após terem anunciado o meu nome.

Feitos os primeiros acordes de Mi Maior, lancei o tema em plenos pulmões:

"Mulher gorda não me convém, não me convém, não me convém
Mulher gorda não me convém. Porquê?
Não quero andar na rua com as banhas de ninguém."

Estávamos em Dezembro de 1973, nos festejos de Natal organizados pela Escola Grande. Era a primeira vez na vida que eu subia a um palco. Tinha eu nove anos.

TRÊS ANOS ANTES...

Após evidentes indícios de que tinha a música no sangue (contaram-me os meus Pais que, com seis anos, andava a batucar em tudo quanto era superfície plana), a família decidiu oferecer-me uma bateria "small size" que ficou instalada em casa dos meus pais na Praínha.

Usufruindo da boa aparelhagem que existia, punha os vinis no gira-discos e acompanhava as músicas à bateria.

Ano e meio após o início musical à bateria, agarrava em réguas, pedaços de madeira, qualquer coisa que servisse e punha ao peito, imitando uma guitarra.

Renato Figueiredo, senhor meu Pai, usando as "connections" que possuía, encomendou então uma requinta na ilha de S. Vicente, na oficina do, já na altura afamado, Mestre Baptista, construtor de todos os instrumentos de cordas existentes em Cabo Verde nos idos 70's, à excepção, obviamente, dos "Made in Outborders".

Oferecida a requinta, guitarra acústica de modelo clássico mas de escala reduzida, nada mais lógico do que enviar o filho para aprender a arte com alguém que acabou por ser responsável por meia Cidade da Praia andar de violão ao peito: Sr. "Pipita" Bettencourt.

Alguns meses mais tarde, perante a constatação de que a música tendia a falar mais alto do que os estudos, o Pai resolveu tirar o Filho querido das aulas de violão.

NATAL DE 1973

Perante uma plateia de papás e mamãs, amigos e colegas de escola e com a adrenalina agora quase nos níveis normais, aventurei-me no segundo tema do "show", uma marchinha de carnaval onde, matreiramente alterei a letra original do poema que dizia "Ó Gabriela, deixa a capela passar" para "deixa o Renato passar", provocando a gargalhada geral no auditório.

Dessa aparição em público restam ainda algumas recordações, não só na minha memória mas também nas memórias de alguns amigos dessa data, com quem ainda tenho o privilégio de privar e tenho o orgulho de saber terem sido testemunhas do meu debutar.

terça-feira, julho 02, 2013

O MEU DIA DE ONTEM EM LUANDA

O MEU DIA DE ONTEM EM LUANDA

Começou às 10 da manhã. 

Toca o telemóvel e anunciam-me cortes nos meus esquemas por falta de pagamento. Em Lisboa.

Quem? Eu????

Ok. Tudo bem. Antes de qualquer atitude, toca a levantar e ir ao restaurante do hotel matabichar. 

O "senhor de conta" daquele espaço confirma haver mata-bicho. Porreiro! Chávena de café, pingado um coche de leite, pão com queijo e fiambre, ya? Tá-se bem. 

Enquanto espero o mata-bicho, não deixo de pensar no telefonema despertador. 

Estou a dever? Eu?!

E vou passeando pelo restaurante e descubro, por mero acaso, o cyber (conforme mais tarde me foi identificado o espaço) do hotel. Tratava-se de um cantinho tapado por uma porta de correr, com um pc barulhento, cuja ventoinha já não via manutenção, calculo eu, há muito tempo. 

Hmmmm! Será que vou conseguir safar-me?

Depois de matabichado vem o senhor: "Aqui temos o seguinte esquema: o mata-bicho é das 6 às 9. Depois disso temos que cobrar". Cool. Quanto é? "600 kuanza". Tá bem. Manda só pôr no quarto 218, ya? "Sem maka, meu kamba". Ya. Fixe. Tá-se bem.

10:30

De regresso aos meus aposentos, pego no telefone e chamo a recepção a pedir informações sobre a net no hotel. "Não tem problema, dirija-se ao cyber no restaurante e pode navegar." 

Porreiro pá! Numa situação de "pouco gosto" na carteira, uma net free vinha mesmo a calhar!

Vou de abalada para o cyber, instalo-me, chamo o google chrome e, já à partida, há maka! O browser só dá mesmo Facebook mas eu quero aceder a outra página. Só que o que aparece é: "a página que pretende não está disponível".

Mau! 

11:00

Não há tempo a perder. Volto ao quarto, ligo para a recepção: Tem internet sem fios? "Tem sim senhor, procure a rede do hotel e a pass é hotelempresa4237, tudo em minúsculas". 

Fixe! Porreiro! Sou um gajo de sorte. 

De iPad em punho, saio do quarto à procura do canto da casa onde pudesse captar o sinal wifi e, tal qual como tinha pensado, na recepção foi onde encontrei o dito cujo, cheio de força e pujança. 

Introduzi a pass... Nada. Voltei a tentar... "Impossível aceder". Chamei a recepcionista, tentei de novo na presença dela... Nada! Ainda lhe disse: Não pode ser esta a pass. "É sim senhor!". Pronto pá. É esta, é esta e não se fala mais nisto. Mas tem a certeza? Perguntei mostrando-lhe onde tinha anotado a pass, hotelempresa4237, tudo em minúsculas. Por se ter levantado uma pontinha de dúvida, lá foi a senhora buscar o livrinho das cábulas debaixo do balcão. Folheou, folheou... Sim! Cá está! É essa mesmo!

Bom... "Se é esse o problema que estamos com ele, vamos fazer mais quê?" Resta a esperança do wirless da sala de ensaio, onde tenho estado todos os dias a navegar. Mas até lá ainda há o banho, o almoço e por fim então, a sala de ensaio, tudo isto intercalado pelo terrível tráfego da Cidade de Luanda.

15:30

Sala de ensaio - presente. 
Ipad - presente. 
Wifi - ausente... 

Não pode! Então? Que se passa? "Ah e tal, trocámos o router". Ok. E a pass? "Não  sei, só o meu irmão que sabe, mais ninguém". Como??? Num espaço onde pelo menos 5 pessoas tomam conta da gestão, uns mais outros menos, é verdade, só um é que tem a pass do wirless? Ok... "Cada um és como cada qual. Ninguém és como evidentemente"... Onde está o irmão? "Não sei, saiu".

Pois... O jeito é esperar.

16:30

Nada. Preciso resolver isto. Preciso ir à internet saber o que se passa e se for o caso fazer o pagamento do que dizem que devo.

Solução? Miami! Pois é. Lá na esplanada eles têm wirless. Ja lá estive no Facebook, pelo que já tenho a rede e a pass memorizadas no iPad. Porreiro. Afinal não está tudo perdido. Ainda.

Curiosamente, não há tráfego para a Ilha. Faz-se bem. 

Uma vez instalado, whiskizinho pedido e servido, iPad na mão e wifi no iPad, "bora" lá abrir a página dos tugas que dizem que eu lhes devo.

18:30

Duas horas depois a página ainda não abriu. A internet está lenta. A carvão. Não, carvão é pouco. Banho-maria é o termo mais adequado.

Pois... O jeito é desistir. Existe um concerto para fazer mais logo, pelo que devo dar início aos procedimentos habituais que antecedem estes acontecimentos: regressar  ao hotel, relaxar, banhinho, concentração, enfim, essas coisas de gajo-músico.

Como este dia correu "muito bem", não podia deixar de acontecer mais uma, logo no início do concerto: a coluna de som pela qual devia ouvir o meu instrumento e que durante a tarde funcionou perfeitamente, começou o concerto... Muda... Sem som... Nada... Out... Caput... Felizmente a coisa foi prontamente resolvida pelos técnicos de som e lá se fez o concerto.

Quando, de volta ao hotel, comentei com outro recepcionista a questão da password da rede wifi, ele disse-me: 

- Sim, a pass é hotelempresa4237, mas em maiúsculas.

...

Hoje de manhã, contando esta história ao meu amigo angolano Betinho, ele aproximou-se do meu ouvido e sussurrou: Isto é Luanda, meu caro!

sexta-feira, junho 07, 2013

MAS AFINAL QUE PORRA É ESTA?

Mas afinal que porra é esta?

Há poucos dias atrás dizia-me a minha amiga Celina Pereira "não vou deixar que façam pouco do único bem que tenho -  a minha inteligência". 

Pois então nem eu!

Que direito tem esta gente (ou acha que tem!) de querer passar atestados de burrice à minha pessoa?

Com que direito vêm Embaixadas e outras entidades da mesma farinha reclamar as minhas atitudes, atitudes essas consequência aliás, de tentativas de passagem de atestados de incompetência aqui ao Je?

Mas que direito têm as pessoas de brincar com o trabalho e respectivas remunerações de cada um? 

Se no início das negociações são todos "ah e tal, as coisas preto no branco é que é, só trabalhamos assim" para depois do trabalho feito aparecerem-me Srs. "Joēs" , Sras. "Filós" e outros que tais com afirmações de que está tudo pago e não se deve nada, quando existem provas do contrário? Não será isso tentarem enfiar-me os dedos nos olhos? O problema é que uso óculos meus "amigos", portanto...

Essa ideia de que estou de pernas abertas à espera que qualquer um venha usufruir, já era! Demodé! Com as Finanças e a Segurança Social deste país bem coladinhos ao meu traseiro, não só tenho-o virado contra a parede como estou de pernas bem fechadinhas, não vá o diabo tecê-las. 

Trabalho com a Cultura do meu País mas isso é, aos olhos de muitos, oportunidade para aplicar o golpe.  Não há escrúpulos nenhuns em empurrar para o fim das prioridades, o pagamento DEVIDO ao PROFISSIONAL contratado. Pois! Esse não tem filhos na universidade, não precisa comer ou dar de comer, não adoece nem tem despesas de manutenção com o seu equipamento.

Estou farto disto!

sábado, dezembro 22, 2012

BUR(R)OCRACIAS (outra vez)

Caríssimos

Por motivos relacionados com a saúde de pessoas chegadas a mim, quase montei tenda no Hospital Garcia de Horta, durante esta semana que ora termina.

O facto de ter de ir e vir diariamente e de ter de passar longos períodos naquele local, permitiu-me presenciar situações que me levam a estar neste momento a fazer o uso "da pena e da folha de papel", com todos "ses"e "ques" inerentes a este acto.

Ora vejamos então se cabe na cabeça de alguém, mandarem um doente para casa, por não ter havido evolução no tratamento que estava a fazer e por estar há mais de 24h a ocupar uma cama nas urgências.

Mas há mais. Esse doente tinha a especial indicação do seu médico (por sinal chefe dessas mesmas urgências) para ficar internado até a situação estar completamente normalizada. Mas como entretanto houve mudança de turno, o chefe desse turno resolveu tão simplesmente ignorar as indicações do seu superior.

E foi assim que foi dada "alta" a um doente à uma e meia da madrugada, com indicações que deveria voltar às nove para consulta.

Se calhar calhou redundantemente que o médico que dava as consultas das 9 da matina era o dito cujo chefe das urgências  que arregalou, tanto quanto lhe permitiam os globos oculares, os seus olhos azuis-esverdeados, ao ver na sua frente alguém que supostamente estava internado.

Ao inteirar-se da situação, o Senhor Doutor mandou continuar com a medicação e marcou novo internamento para o dia seguinte, aproveitando para ensaiar um bonito e veemente discurso do tipo "andamos a brincar ó quê?", com o qual presenteou os funcionários da urgência, nesse dia seguinte, pela altura do segundo internamento.

Enfim....

Outra situação por mim presenciada, desta feita já no fim desta longa semana de "acampamento" nesse hospital, teve a ver com uma paciente a quem foi dada alta, desta vez por ter terminado efectivamente o tratamento, que se encontrava bastante debilitada. Mal podia aguentar-se de pé de tão fraca. Esforçava-se visivelmente para arrastar um pé atras do outro.

O marido desta paciente, tentando minimizar a situação,  foi falar com o segurança da porta de entrada, no sentido de autorizar a colocação da viatura do casal mesmo à porta para depois ir ajudar a esposa a percorrer poucos metros que a separavam da saída. O segurança autorizou e lá foi o maridão buscar o popó.

Estacionado à porta e  em cima do passeio, piscas acionados, quando se preparava para sair e ir buscar a esposa, atira-se o segurança para a frente falando em tom autoritário:

O SENHOR NÃO PODE ABANDONAR A VIATURA!

Ora essa!!! Então como é que o rapaz vai ajudar a mulher???

VÁ PARAR O CARRO NOUTRO SITIO, MAS ABANDONÁ-LO AQUI É QUE NÃO PODE SER!!! - Voltou a berrar o segurança

Mas "paxenxa" senhores... Tantas regras, eficiência zero...





quinta-feira, agosto 16, 2012

HÁ 34 ANOS


Há 34 anos, dava-se o embarque da Família no aeródromo de São Pedro, São Vicente, para Lisboa, naquela que seria a viagem rumo à emigração, a um tipo de vida completamente diferente, num País não totalmente estranho, mas por outro lado desconhecido.

Nessa viagem, como que a amenizar a dor e a saudade, quis a TAP, já no Aeroporto do Sal,  arrancar mais cedo do que estava estipulado, deixando para trás alguns passageiros, entre os quais uma mãe e dois filhos, ele de 14, ela de 12, facultando com isso mais quatro dias em terras crioulas.

Quis também o destino que o grupo musical Os Tubarões estivesse presente naquele fim-de-semana de Agosto do ano de 1978, dia 15, no hotel onde estava a Família hospedada. Pôde-se portanto, assistir a um baile nessa noite, como uma forma de brindar a despedida.

No dia seguinte, pelo fim da manhã, deu-se então início à última etapa da viagem, tendo a família chegado ao aeroporto da Portela no dia 16 de Agosto de 1978, por volta das 4 horas da tarde.

Ess li quê nha história de Terra Longe...