quarta-feira, setembro 29, 2021

MEMÓRIAS D’UM PALCO - VIII


QUILÓMETRO 


Um conceituado (já extinto) Bar-Restaurante cabo-verdiano com música ao vivo em Lisboa, faz também parte do meu currículo. Nos primeiros anos a seguir ao meu regresso a terras lusas, no início deste século, cheguei a estar presente em todos os dias que a casa abria ao público. 


Estava eu em plena função, num daqueles dias de casa cheia: clientes “habituès” - autênticas provas de fidelidade -, clientes menos habituais - regra geral mais barulhentos (não sei se a relação é directamente proporcional, mas quero acreditar que sim) - e clientes que estavam de passagem, esses, entre uns copos cá e outros lá e que muitas vezes se perguntavam como raio tinham ido parar a um bar de música de Cabo Verde.


Ou seja, a casa estava no ponto. Um bocadinho mais e já seria difícil dominar as feras até às duas da manhã, daquela noite de verão quente e brisa zero. 


Um xará meu que se encontrava, por sinal, numa mesa bem em frente ao palco, um pouco mais observador nessa noite, reparou que eu trazia calçadas umas sandálias de couro, expondo os meus pés pendurados no suporte do banco alto em que me encontrava sentado.


E pelo que se seguiu, terá reparado que eu tinha feito algo que, se bem me lembrava, nunca tinha feito na vida: pedicure. 

(Também tinha feito manicure, mas “prontos”, o homem reparou foi nos meus pés…)


E assim foi…


Em plena melodia romântica de “Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa…”, o meu querido xará resolve berrar em plenos pulmões:

  • ESTÁS METROSEXUAL, PALÓ!!!


Embora já tivesse muitos anos a virar frangos e sem queimar as asinhas nessas andanças, o berro, a pujança e o assunto quase fizeram-me esquecer o resto da canção. Até porque aquela coisa ficou a moer-me a cabeça, o que em nada ajudou na minha performance.


E é de repente, assim do nada, que me veio à cabeça e acto contínuo saiu pela boca (encostada ao microfone):


  • Isto é quilómetro, Paulo, não é metro!


Dito isto, continuei calmamente a minha canção até ao fim…



Metrosexual (do inglês - metro[politan], urbano, metropolitano + sexual). Adjectivo de dois géneros e nome masculino. - in Dicionário Priberam.com

terça-feira, setembro 28, 2021

MEMÓRIAS D’UM PALCO - VII

NÃO VOLTES A VESTIR ISSO, POR FAVOR!


Nessa altura, com menos 40 kg, a figura do rapaz até permitia alguns atrevimentos a nível de indumentária de palco. 


Então nesse dia ele resolveu apresentar-se no baile popular vestido com uns calções pretos, identificados como Magnussom pelo povo em geral. Tratavam-se de uns calções elásticos, de um material brilhante, muito colados ao corpo da cintura até um pouco acima dos joelhos e que normalmente vestiam-se por baixo de calções de desporto, estes naturalmente mais curtos e folgados.


A acompanhar, uma camisola de alças da Loys, também preta, snickers pretos nos pés, meias de cano curto brancas, uma boina preta à Comandante Che, a inseparável luva branca de dedos cortados na mão direita e, para que não destoar (e por razões óbvias), um fio dental por baixo dos Magnusson.


Seis horas mais tarde, após muito tocar, pular, rebolar, inclinar e transpirar, enquanto arrumava o material, aproxima-se uma fã que, com uma expressão de reprovação em toda a extensão da sua face, disse-lhe em alto e bom som:


  • “Nááá, ami ê bu fan, má ca bu bisti si nunca más, DI ZIMOLA!!!”

(Sou tua fã , mas não voltes a vestir isso, por favor!!!)

MEMÓRIAS D’UM PALCO - VI

LUTXINHAAAAAA!!!


Nos idos 1986 do século passado, fiz parte durante 8 meses da banda residente que tocava no Bana’s, a.k.a Monte Cara, a.k.a En’Clave, na rua do Sol ao Rato, em Lisboa.


Dessa banda também faziam parte o saudoso Paxinho, o grande Zé Brazão, a  grande voz - Dudú Araújo e o meu amigão do peito, Lúcio Vieira, a quem eu chamava carinhosamente de Lutxinha.


As noites eram saborosas. A performance dos “Kassafinhos”, como nos chamava a patroa, eram deliciosas, algumas de levar a malta ao êxtase.


Eu, como sempre muito expressivo nas minhas emoções em palco, entre outras maluquices, volta e meia soltava um grito ao microfone: - “LUTXINHAAAAA!!!” - para incentivar o Lúcio a entrar na brincadeira, ou quando a sua musicalidade o levava a fazer qualquer coisa transcendental.


Um dia… 


Arranjei uma namorada. Levei-a comigo a uma dessas noites.


Bem… resumindo.


Finda a noite, descíamos a rua em direcção ao Rato e ela com umas trombas, mal me falava. Quando finalmente perguntei qual era o problema, ela ripostou:


  • “Hás-de me dizer quem é essa Lutxinha que passaste a noite inteira a gritar ao microfone !!!”


Óóó Deuuusss!!!…

MEMÓRIAS D’UM PALCO - V

WTF MAIÚSCULO 


Ela (com os olhos muito abertos, de um azul-marinho-tipo-praia-d'Laginha-da-minha-terra-Soncent, inseridos numa cara cuja pele necessitava urgentemente de ser passada a ferro e com tanta maquilhagem que assustaria qualquer um num cenário menos iluminado):

- Sapatos bonitos...

Ele, com cara de "wtf" e a cabeça já a trabalhar a mil:

- Ahhh... Muito obrigado...

Ela:

- Outra coisa: já reparei que gosta de combinar a cor dos sapatos com peças do seu vestuário.

Ele, desta vez com cara de WTF maiúsculo mesmo:

- Sim... E?...

Ela, cada vez mais confiante:

- É que hoje não vejo onde está a combinação...

Ele, maroto:

- Não quer adivinhar?

Ela, de sorrisinho malicioso no canto da boca:

- As cuecas???

Ele:

Não... O cinto...

MEMÓRIAS D’UM PALCO - IV

A BARRIGA NÃO DEIXA


Ela e ele, no escuro de uma pista de dança cheia de gente, no suave embalo de um semba descomplicado. 


Ela agarrada ao pescoço dele, ele de braço esquerdo estendido, na mais irrepreensível pose vintage de dança, quando de repente...


Ela dá-lhe um aperto no pescoço, puxa-o para si e sussurra-lhe ao ouvido:

- Aperta-me mais... cola-te a mim...

Ele, de sorriso maroto no canto da boca, aproxima-se do ouvido dela e diz-lhe, com volume qb para sobrepor à música:

- A barriga não deixa..

MEMÓRIAS D’UM PALCO - III

TIRA A CALÇA!!!


Na Concha Acústica, em S. Salvador, debaixo de um calor infernal, o grupo Finaçon terminava uma memorável noite, num concerto que durou pouco mais que uma hora, para uma enorme plateia de brasileiros e alguns, muito poucos, cabo-verdianos.


Findo o último tema, a banda fez a habitual vénia e dirigiu-se para o side-field direito, para abandonar a cena. 


Eu, como tinha muitos cabos, pedais, o baixo mais o saco, uma estante de suporte para os dois drums machine que usava e um bloco de notas A4 onde tinha o repertório da banda com as devidas anotações, decidi arrumar tudo primeiro e só depois sair do palco.


A páginas tantas, dou comigo a pensar, enquanto arrumava: - “Esta vinda ao Brasil foi patrocinada pela Ceris; estamos todos vestidos com T-Shirts dessa marca de cerveja; que tal se…”

    • PLIMMM!!!   (IN)FELIZ IDEIA!!!


Num impulso, volto-me para a plateia, que entretanto não arredara pé, corro até à borda do palco, enquanto dispo a T-Shirt da Ceris que trazia vestida, expondo um autêntico reco-reco humano formado pelos ossos das minhas costelas. Sim, porque, na altura, já com os meus definitivos metro e noventa e oito de altura, pesava apenas uns setenta quilinhos. Pele e osso, como muitas vezes ouvi, inclusive da minha mãe. 


Chegado à borda do palco, fiz o que se esperava, rodeei a camisola por cima da cabeça (mais exposição de reco-reco) e atirei-a para o público. Não cheguei a ver onde foi parar porque logo em seguida, fiz meia volta em direcção à minha posição, para terminar de arrumar o estaminé.


E é precisamente nesse momento, em que sinto algumas centenas de pares de olhos postos em mim, sozinho naquele palco imenso, que oiço aquela voz masculina com profundo sotaque, na mais perfeita combinação tonalidade/volume:


“TXIRA A CAUÇAAAA!!!”


Enfim…

MEMÓRIAS D’UM PALCO - II

ISTO É PARA MIM?


Cumpria eu, de boa vontade diga-se, o terceiro e último set musical da noite, na postura habitual, concentrado mas de olhar perdido no público, sem ver nada de concreto, quando algo se concretizou à minha frente, fazendo com que o olhar perdido e sem nada ver, passasse a um olhar focado e querendo tudo ver…  melhor dizendo, querendo tudo entender.


A dois metros de mim, dançava (?) sozinha na pista, um exemplar feminino da espécie humana, com um olhar felino apontado à minha pessoa, cujos movimentos entravam violentamente pelos meus olhos, tal eram a voluptuosidade, a lascívia e sensação deleitosa, transmitidas por aquele ser de pouco mais de um metro e meio.


Quando a esmola é grande, o pobre desconfia. E eu desconfiei. Logo!


Dúvidas quase que existenciais tomaram-me de assalto. Do tipo: “Hã?!”; “Qu’é isto???”; “A sério?”

E a mais cruel de todas: “ISTO É PARA MIM???”

Naaaa. Não pode ser!


Mas por outro lado, naquela zona do palco só estava eu. Nem os dois pares de colunas de som, de um discreto cinzento escuro e que estavam entre nós, descaídos sobre o lado esquerdo, serviam para levantar qualquer dúvida e, consequentemente, inventar a tão ansiosa desculpa, por forma a que pudesse afastar de mim aquele constrangimento crescente que, entretanto, invadira o meu ser…


Mas sim… 


Dez minutos depois, ainda lá estava o sensual vestido verde, curto nos sentidos vertical e horizontal, fazendo ressaltar as curvas, no plano horizontal e as pernas, no vertical, em cima de dois tacões finíssimos que bem podiam servir de arma, em caso de emergência.


Como duas cabeças sempre pensam melhor que uma, achei que fosse de bom tom passar a informação à minha namorada, que habitualmente se sentava à beira do palco ao meu lado, chamando a atenção dela para o cenário e pedindo-lhe a opinião - sabendo de antemão que toda aquela situação ia ser motivo de fortes gargalhadas. 


No fim da noite, disse-me a namorada, quando íamos a caminho de casa:


  • Ela deu em cima forte e feio…

Risos…

quinta-feira, setembro 23, 2021

MEMÓRIAS D’UM PALCO - I


MACHO OU FÊMEA? (Vai na volta, “matxa-fémia”)…

Tinha acabado mais um set de 45 minutos de música e atravessava a escurecida pista de dança, apinhada de pares sôfregos de um saboroso embalar de passada, no compasso de um irrepreensível semba.

Autêntico exercício de cálculo de tangentes quase secantes, diga-se, acompanhado de uns quantos “côl-lecença” e “desculpe” à mistura.

Já quase no fim deste pequeno martírio, quando já avistava as luzes do corredor que levava ao balcão e começando a sentir-me aliviado, eis que sinto uma mão bem aberta e veementemente cheia de intenção na minha almofada traseira do lado direito!!!

- HEEE LÁÁÁ!!! - pensei eu. - Kétaméda???

O primeiríssimo impulso de virar-me para trás e ver quem terá sido A atrevida, foi imediatamente refreado pelo pensamento: “E se for um O atrevido?” 🤔

Pelo sim pelo não, optei por continuar em frente, fingindo não me ter apercebido…