Adeus Jaime

Jaime do Rosário, Jaime dos Tubarões, meu colega e amigo,

Soube hoje que nos abandonaste. Fiquei triste.

Falar de ti é lembrar-me das gravações feitas pelo Renato, senhor meu Pai, na nossa casa na Praínha e posteriormente na nossa casa no Ténis, na companhia do Ildo, do Sr Pipita, do Zeca Couto, do Brás, cujas bobines ainda se encontram em meu poder.

Falar do Jaime é lembrar-me imediatamente de uma coisa: do solo da guitarra na introdução do tema Alto Cutelo no disco dos Tubarões, solo esse que ainda faço com muito prazer, quando me é dada a introdução deste mesmo tema.

Descansa em paz amigo.


WORKSHOP EM CABO VERDE

Um workshop sobre Tecnologias da Música irá acontecer na próxima terça-feira, 14 de Outubro, com início às 18h30, no auditório da Reitoria da Uni-CV.

Em S. Vicente, será no dia seguinte, 15, às 17h no Centro Cultural do Mindelo.

O animador será Humberto Ramos, pianista, produtor e arranjador, com larga experiência no meio musical.

CRÓNICA DE MÁRIO PRATA

A principal diferença entre a revista Playboy americana e a Playboy brasileira é a língua? Errado. É a bunda.

Na americana, temos seios, úberes, verdadeiras tetas que mal cabem nas páginas duplas. Na nossa, temos bundas. Bundinhas de penugem loira, bundinhas de contorno marrom, até bundinhas cor de rosa.

Americano não gosta de bunda? Eu diria que americano não conhece a bunda. Aliás, no mundo inteiro, não existem bumbuns como os nossos, ou melhor, como as nossas. A bunda é um produto interno e bruto tipicamente brasileiro. Às vezes, a revista americana faz edições especiais sobre seios. Aqui, fazemos verdadeiros compêndios sobre (e sob) bundinhas. Narcisamente, o brasileiro adora a própria bunda.

Mas de onde veio a nossa bunda? Não das alvas portuguesas, muito menos das esparramadas italianas e, menos ainda, das desbundadas japonesas. Muito menos das amassadas índias. Sempre me intrigou esta tanajúrica pergunta. Quem arrebitou com pincel de ouro, com formão de prata, a bundinha brasileira?

Tinha essa dúvida até conhecer Cabo Verde, um país de dez vulcânicas ilhas na costa oeste da África. Foi lá que tudo começou.

O país tem, atualmente, mais ou menos, 300 mil bundas ambulantemente espalhadas pelo arquipélago. Bundas livres de Portugal desde 1975. E a bunda brasileira, antes de chegar aqui, passou por lá, vindo do continente africano. Ou seja, foi lá que inventaram a fórmula, o contorno quase lúdico, o molde mais que esteticamente perfeito. A bunda politicamente correta. Tenho certeza dessa afirmação e vou tentar provar.

Foi em Cabo Verde que surgiram as primeiras mulatas. Apesar da palavra mulata ter origem espanhola, o conteúdo foi uma criação dos ingleses, holandeses, e dos franceses que por lá passavam desde o começo do século XVI com seus navios negreiros trazendo escravos para o Brasil. Lá era o point no meio do Atlântico. E lá os brancos deixaram o sêmen (do latim semen, que significa semente) para a fabricação das mulatas com suas respectivas bundas. Gostavam tanto das cabo-verdianas que Sir Francis Drake, pirata-mór daqueles tempos, chegou até a saquear o país em 1590 a mando da tal Companhia das Índias Ocidentais. O saque durou sete anos e milhares e milhares de sementes foram im(plantadas). Tinham sacado a bunda.

Esta mistura deu a cor actual das nativas. Não são negras como as vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como preferem elas. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de Patrícia França.

Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem que ver para crer. São Tomé não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do Brasil).

Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza, especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde, justa. Justíssima. Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões, em homenageante silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava trêmulo, suado:

- Vem, vem, lembra daquela bunda?

- Estava sonhando com ela.

- Veste, veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate!

E lá fomos nós dois para a boate. Não só a 'nossa' bunda de verde (agora num fulgurante amarelo) dançava, mas uma infinidade delas. Que espectáculo.

Só que, no princípio era o verbo e não a carne e, naquele tempo, na época do tráfico dos escravos, quando surgia a bunda no meio do Atlântico, qual ilha vulcânica, a bunda ainda não se chamava bunda. Como aliás, até hoje em Portugal não se chama. Bunda só no Brasil. Em Portugal a bunda é um cu.

Mas foi na mesma África que fomos buscar a sonoríssima e mais do que adequada palavra bunda. Diz a lenda que a origem seria das danças dos africanos. Ficavam as mulheres dançando no meio e o crioléu em volta batendo tambor e fazendo som com a boca: bun-da!, bun-da! Mas isso é lenda. Na verdade, a palavra veio da língua quimbundo (kimbundu), da palavra bunda (mbunda, tubundas, elebunda?), lá para os lados de Angola, local onde viviam os bantos, raça negra sul-africana à qual pertenciam, entre outros, os negros escravos chamados no Brasil angolas, cabindas, benguelas, congos, moçambiques.

Nós, brasileiros e cabo-verdianos, nascemos com a bunda virada para a lua.