Pouca Vergonha

Por: José Afonso.





Numa coisa concordamos quase todos. Nos tempos que correm e no que respeita à criatividade e competência para pôr no ar um programa que convirja audiências, das duas uma: ou se tem efectivamente potencial académico e artístico intrínseco, ou se plagia o vizinho do lado, tentando e/ou fazendo-se mesmo passar despercebido. Na minha terra costuma usar-se o termo "dá pa dôde".

Verdade 1:
Corria o ano de 2007, quando eu fui convidado para director musical de um projecto televisivo, de nome "Imbondeiro" - segundo reza o dicionário, "Embondeiro"/"Imbondeiro" é a mesma árvore de grande porte e comum nas "Áfricas portuguesas" -, programa esse dedicado à comemoração dos 10 anos da CPLP, cuja sinopse e/ou conteúdo foi encomendada à Cantora Celina Pereira que, como mulher da cultura de referenciados atributos, tais como, formação académica, inteligência, discernimento, capacidade comunicativa e conhecedora experiente dos assuntos temáticos relativos à produção do programa, assumiu igualmente e como autora, a apresentação do mesmo.

Verdade 2:
- O programa "Imbondeiro" foi gravado nos estúdios da Astrolábio em Alcântara, com inúmeros convidados, cito alguns: Martinho da Vila, Paulo de Carvalho, Dany Silva, André Cabaço, Couple Coffee, Don Kikas, Tonecas, etc, altas individualidades, tais como Embaixadores, artistas plásticos lusófonos e personalidades ligadas à CPLP.

Verdade 3:
- Foi emitido esse programa de 2h40m pela RTP, como comprovam os registos da própria RTP, da Astrolábio e as cópias em DVD oferecidas à Autora, Celina Pereira.

Verdade 4 (ou talvez não):
- A "promessa" da entidade "compradora" do programa, neste caso a RTP, era de, no seguimento deste primeiro "Imbondeiro", fazerem-se mais 13 episódios, de 50 minutos cada.

Verdade 5 (afinal, comprovada mentira!):
- A RTP, na pessoa da Isabel Fragata, informa à Autora Celina Pereira que, na reabertura da programação em Outubro, iriam concretizar-se os 13 episódios.

Pouca Vergonha 1:
- Passaram-se 3 anos e aparece hoje, de repente e "do nada"(?), um programa de nome - olhem a "coincidência" -, "Embondeiro", com o mesmo conteúdo, mesmo formato, mas apresentado pela Cantora Nancy Vieira.
- Pergunta-se: então a RTP não tem o direito de escolher quem bem quiser para apresentar seja o que for?
- Responde-se: Claro que sim! Reconheço à actual apresentadora os mesmos atributos, ainda que numa escala reduzida, fruto natural da diferença de idades entre ambas e efectiva experiência de vida.

Pouca Vergonha 2:
- Não seria de bom tom, de pessoas honestas, dignas e respeitadoras do próximo, terem tido pelo menos o bom senso de comunicar em primeira mão à Celina Pereira a opção tomada?
Será que a atitude seria a mesma, se tivesse a Celina Pereira não confiado na "palavra" de honra(?) dada pela RTP e tivesse registado todo o processo nas entidades defensoras dos direitos de autor? Claro que não! Infelizmente ou talvez não, nós os Cabo-verdianos, mantemos a natural ingenuidade que nos faz acreditar nas pessoas, de uma forma desligada das normas legais que devem (deviam!) fazer parte das nossas vidas, em prol do nosso bem-estar espiritual, intelectual e social.

Desabafo 1:
Sendo eu filho de boa gente, o que me orgulha e me faz dizê-lo de boca cheia, não podia deixar de expressar a minha indignação perante tal facto, ainda mais como parte integrante deste projecto "Imbondeiro". Faço-o com a total convicção da razão que me (nos) assiste, puxando sim a brasa à minha (nossa) sardinha, pois infelizmente não há coragem intelectual da outra parte em reconhecer os créditos a quem efectivamente os tem. A história do "diz que disse" é costumeira na relação humana e a todos os níveis, de algumas entidades portuguesas verso africanas, quando toca a reconhecer capacidades cerebrais aos "coitadinhos" ex-colonizados, tentando sempre passar atestados de menor valia. O síndroma do paternalismo persiste, com a certeza porém que a história futura, que prevejo muito em breve, irá pôr as coisas no seu devido sítio.

Desabafo 2:
Tenho muita honra em ser Cabo-verdiano e Português, facto esse que permite expressar-me em duas maravilhosas línguas maternas. Será que ainda não deram conta que sabemos o que sabem porque tivemos a humildade de assimilar conhecimentos, mas não sabem o que sabemos porque nunca houve essa reciprocidade? A humildade, inteligência e sabedoria do Cabo-verdiano, reside exactamente neste grande pormenor. Como vêem, a vantagem é nossa!

Não conseguir portanto distinguir a ignorância (quem ignora/não sabe) e/ou ingenuidade da burrice, essa sim, é uma atitude de seres obtusos.

Os actos praticados ficam registados nas páginas da vida.

Durmam bem(?!).

José Afonso.
Nov. 2010




P.intor pintado de golpista
O.u incapaz malabarista
U.sando capa de bom finalista
C.amuflado de galo sem crista
A.lguma gralha ele tem na vista
V.ivendo de pardal sem alpista
E.nvolvído num esquema de artista
R.ouba como bom oportunista
G.rande peça de uma "Boavista"

O.rdenadas as sementes destes "canteiros"
N.esta "estória, estória" já roubaram
H.ortas de hoje dão "embondeiros"
A.té pouca vergonha já plantaram


Zé Afonso
Nov. 2010

MAIS UMA PERDA



Mais uma perda irreparável para a nossa Música!
O autor compositor intérprete nascido na nossa Grande Ilha, de seu nome NORBERTO TAVARES, músico revolucionário assim como o foi na vida real pelo seu constante activismo social, para não dizer político… acaba de nos deixar para sempre! Isto após uma longa luta contra a doença que o afastara dos seus inúmeros fans nos últimos anos…Que a terra lhe seja leve! Na certeza de que o Homem especial parte… mas deixa-nos esse património musical valiosíssimo… que há muito faz parte da nossa História como Povo, além da meramente musical creoula.



Fonseca Soares

PALAVRINHAS PARA TI MEU AMIGO

Chorei quando soube.

Não pude evitar.

Não pude deixar de me lembrar da noite do fim-de-ano de 2002 no Novo Horizonte, na Ilha do Sal.

Não pude deixar de me lembrar das nossas noites de música ao vivo por esse Mindelo fora. E pela Cidade da Praia também.

Mindelo ficou mais triste sem a tua voz.

E eu, cheio de saudades tuas, mano Djoia.