CAPITÃO AMBRÓSIO CHEGOU!!!!



CAPITÃO AMBRÓSIO

1

Bandeira
Negra bandeira
Bandeira negra da fome.
Em mãos famintas erguidas
Guiando os passos guiando
Nos olhos livres voando
Voando livre e luzindo
Inquieta e livre luzindo
Luzindo a negra bandeira
Clara bandeira da fome.

2

Mãos erguidas
Em força, duras, erguidas
Pés marcando a revolta
O povo marcha na rua.

Vai na frente o Ambrósio
Mulato Ambrósio guiando
Leva nas mãos a bandeira.
Pesada e fria é a noite
Injusta e amarga é a fome
Mas vai na frente o Ambrósio
E há promessas de luz
para além da negra bandeira
Novos caminhos de amor
De trás da negra bandeira
caminhos novos sorrindo
Florindo novos destinos
Certos
Perfeitos
Abertos
Em olhos famintos abrindo
Destinos claros na frente ...

Em frente marcha o Ambrósio
Negra bandeira voando
Voando livre e guiando
Clara bandeira da fome
Rota e negra luzindo
Guiando o povo marchando.

3

Foi um minuto
Veio o vento e passou.
Mulato Ambrósio foi preso
Julgado e preso o Ambrósio
Preso para longe o Ambrósio
Mandado pra longe o Ambrósio
Longe do povo o Ambrósio.
Mas a bandeira ficou.
Morreu e foi enterrado
Mas a bandeira ficou.

4

Chora fome
Chora fome
Chora fome nestas ruas.
Nestas ruas grita fome
Grita fome do teu corpo.
Morre morto e ressuscita
Ressuscita na bandeira
Ressuscita e luta povo
Nos ares solta bandeira
Negra bandeira nos olhos
Clara bandeira da fome
Ressuscita e luta povo.

5

Capitão! A voz vem do fundo ...
Capitão dos mortos ultrajados
Capitão dos vivos humilhados!
Nós te afirmamos, neste chão
Continuam os homens a morrer:
De fome continuamos a morrer
Enquanto o inimigo cresce e cresce.

Continuamos a morrer meu capitão
de fome nestas ilhas a morrer.
Sem culpa e sem razão
Meu capitão
E a morte chega sempre indesejada.

Também indesejada foi a tua
Longe deste chão, meu capitão...
Também indesejada esta tristeza
E esta renúncia cedida ao inimigo...
Alma em sobressaltos, povo meu,
Seja de manhã de noite ou dia claro
Sejam os teus olhos céu aberto
E neles a bandeira desta fome.

Capitão! a voz vem dos mortos
- Vem nos ventos e na lua -
Vem dos vivos sem rumo
Vem nos famintos catando
O seu destino na rua.
Capitão! E a voz
Esta voz somos nós.

Se o choro
Plantando na dor nova flor
Renasce com novo calor ?
Capitão! Esta voz somos nós!

Em cada choro pisado
Em cada choro rolado
Rola a negra bandeira
Clara bandeira da fome.

Capitão! volta no choro outra vez!
Chiquinha foi e morreu
Nhonhó partiu e ficou
Mas tu volta pra nós.
Volta e arrasta contigo
Um vento forte que vente
Um vento que vente e que a gente
Ouvindo o forte ventar
Com tanta raiva soprando
Com força tanta correndo
Que a gente ouvindo assim tanto
A gente grita cantando
Capitão Ambrósio chegou!
Chegou o Ambrósio chegou!

Clara bandeira na frente
Negra bandeira guiando
Em mãos seguras erguidas
Em trilhos verdeluzindo
Luzindo a negra bandeira
Clara bandeira na frente
Na frente segue Ambrósio!

Meu pai: manda o povo cantar
Manda o povo cantar na madrugada limpa
Manda o povo cantar com tambores e búzios
Quando o Ambrósio chegar.

Gabriel Mariano
Lisboa, 1956

Gabriel Mariano: Vila de Ribeira Grande, 18 de Maio 1928 -- Lisboa, 18 de Fevereiro 2002

CARA NOVA

Há já muito tempo que pensava em trocar a roupa a este Blog. Inclusivé já tinha nos Favoritos o link de um site onde iria buscar esse layout.

Hoje enchi-me de coragem e cá está!

Enjoy it.

NOÇÃO DE ECONOMIA

Numa pequena vila e estância na costa sul da França chove e nada de especial acontece. A crise sente-se.

Toda a gente deve a toda a gente.

Subitamente, um rico turista russo, chega ao pequeno hotel local.

Pede um quarto e coloca uma nota de E100 sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se o mesmo não lhe agradar.

O dono do hotel pega na nota de E100 e corre ao fornecedor de carne, a quem deve E100, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar E100 que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os E100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os E100 e corre ao hotel a quem devia E100 pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.

Neste momento o russo rico desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos E100. Recebe o dinheiro e sai.

Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido.

Contudo, todos liquidaram as suas dívidas e os elementos da pequena vila costeira encaram agora o futuro com um renovado optimismo.

Há experts em alta finança que chamam a isto economia.

Dá que pensar!...

1969/2009


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