O MEU DIA DE ONTEM EM LUANDA

O MEU DIA DE ONTEM EM LUANDA

Começou às 10 da manhã. 

Toca o telemóvel e anunciam-me cortes nos meus esquemas por falta de pagamento. Em Lisboa.

Quem? Eu????

Ok. Tudo bem. Antes de qualquer atitude, toca a levantar e ir ao restaurante do hotel matabichar. 

O "senhor de conta" daquele espaço confirma haver mata-bicho. Porreiro! Chávena de café, pingado um coche de leite, pão com queijo e fiambre, ya? Tá-se bem. 

Enquanto espero o mata-bicho, não deixo de pensar no telefonema despertador. 

Estou a dever? Eu?!

E vou passeando pelo restaurante e descubro, por mero acaso, o cyber (conforme mais tarde me foi identificado o espaço) do hotel. Tratava-se de um cantinho tapado por uma porta de correr, com um pc barulhento, cuja ventoinha já não via manutenção, calculo eu, há muito tempo. 

Hmmmm! Será que vou conseguir safar-me?

Depois de matabichado vem o senhor: "Aqui temos o seguinte esquema: o mata-bicho é das 6 às 9. Depois disso temos que cobrar". Cool. Quanto é? "600 kuanza". Tá bem. Manda só pôr no quarto 218, ya? "Sem maka, meu kamba". Ya. Fixe. Tá-se bem.

10:30

De regresso aos meus aposentos, pego no telefone e chamo a recepção a pedir informações sobre a net no hotel. "Não tem problema, dirija-se ao cyber no restaurante e pode navegar." 

Porreiro pá! Numa situação de "pouco gosto" na carteira, uma net free vinha mesmo a calhar!

Vou de abalada para o cyber, instalo-me, chamo o google chrome e, já à partida, há maka! O browser só dá mesmo Facebook mas eu quero aceder a outra página. Só que o que aparece é: "a página que pretende não está disponível".

Mau! 

11:00

Não há tempo a perder. Volto ao quarto, ligo para a recepção: Tem internet sem fios? "Tem sim senhor, procure a rede do hotel e a pass é hotelempresa4237, tudo em minúsculas". 

Fixe! Porreiro! Sou um gajo de sorte. 

De iPad em punho, saio do quarto à procura do canto da casa onde pudesse captar o sinal wifi e, tal qual como tinha pensado, na recepção foi onde encontrei o dito cujo, cheio de força e pujança. 

Introduzi a pass... Nada. Voltei a tentar... "Impossível aceder". Chamei a recepcionista, tentei de novo na presença dela... Nada! Ainda lhe disse: Não pode ser esta a pass. "É sim senhor!". Pronto pá. É esta, é esta e não se fala mais nisto. Mas tem a certeza? Perguntei mostrando-lhe onde tinha anotado a pass, hotelempresa4237, tudo em minúsculas. Por se ter levantado uma pontinha de dúvida, lá foi a senhora buscar o livrinho das cábulas debaixo do balcão. Folheou, folheou... Sim! Cá está! É essa mesmo!

Bom... "Se é esse o problema que estamos com ele, vamos fazer mais quê?" Resta a esperança do wirless da sala de ensaio, onde tenho estado todos os dias a navegar. Mas até lá ainda há o banho, o almoço e por fim então, a sala de ensaio, tudo isto intercalado pelo terrível tráfego da Cidade de Luanda.

15:30

Sala de ensaio - presente. 
Ipad - presente. 
Wifi - ausente... 

Não pode! Então? Que se passa? "Ah e tal, trocámos o router". Ok. E a pass? "Não  sei, só o meu irmão que sabe, mais ninguém". Como??? Num espaço onde pelo menos 5 pessoas tomam conta da gestão, uns mais outros menos, é verdade, só um é que tem a pass do wirless? Ok... "Cada um és como cada qual. Ninguém és como evidentemente"... Onde está o irmão? "Não sei, saiu".

Pois... O jeito é esperar.

16:30

Nada. Preciso resolver isto. Preciso ir à internet saber o que se passa e se for o caso fazer o pagamento do que dizem que devo.

Solução? Miami! Pois é. Lá na esplanada eles têm wirless. Ja lá estive no Facebook, pelo que já tenho a rede e a pass memorizadas no iPad. Porreiro. Afinal não está tudo perdido. Ainda.

Curiosamente, não há tráfego para a Ilha. Faz-se bem. 

Uma vez instalado, whiskizinho pedido e servido, iPad na mão e wifi no iPad, "bora" lá abrir a página dos tugas que dizem que eu lhes devo.

18:30

Duas horas depois a página ainda não abriu. A internet está lenta. A carvão. Não, carvão é pouco. Banho-maria é o termo mais adequado.

Pois... O jeito é desistir. Existe um concerto para fazer mais logo, pelo que devo dar início aos procedimentos habituais que antecedem estes acontecimentos: regressar  ao hotel, relaxar, banhinho, concentração, enfim, essas coisas de gajo-músico.

Como este dia correu "muito bem", não podia deixar de acontecer mais uma, logo no início do concerto: a coluna de som pela qual devia ouvir o meu instrumento e que durante a tarde funcionou perfeitamente, começou o concerto... Muda... Sem som... Nada... Out... Caput... Felizmente a coisa foi prontamente resolvida pelos técnicos de som e lá se fez o concerto.

Quando, de volta ao hotel, comentei com outro recepcionista a questão da password da rede wifi, ele disse-me: 

- Sim, a pass é hotelempresa4237, mas em maiúsculas.

...

Hoje de manhã, contando esta história ao meu amigo angolano Betinho, ele aproximou-se do meu ouvido e sussurrou: Isto é Luanda, meu caro!

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