E HÃ QUARENTA ANOS ACONTECEU ASSIM:

De requinta com selo Baptista ao peito, voz afinada e coração aos pulos, subi ao palco do pátio da Escola Grande, na Cidade da Praia, após terem anunciado o meu nome.

Feitos os primeiros acordes de Mi Maior, lancei o tema em plenos pulmões:

"Mulher gorda não me convém, não me convém, não me convém
Mulher gorda não me convém. Porquê?
Não quero andar na rua com as banhas de ninguém."

Estávamos em Dezembro de 1973, nos festejos de Natal organizados pela Escola Grande. Era a primeira vez na vida que eu subia a um palco. Tinha eu nove anos.

TRÊS ANOS ANTES...

Após evidentes indícios de que tinha a música no sangue (contaram-me os meus Pais que, com seis anos, andava a batucar em tudo quanto era superfície plana), a família decidiu oferecer-me uma bateria "small size" que ficou instalada em casa dos meus pais na Praínha.

Usufruindo da boa aparelhagem que existia, punha os vinis no gira-discos e acompanhava as músicas à bateria.

Ano e meio após o início musical à bateria, agarrava em réguas, pedaços de madeira, qualquer coisa que servisse e punha ao peito, imitando uma guitarra.

Renato Figueiredo, senhor meu Pai, usando as "connections" que possuía, encomendou então uma requinta na ilha de S. Vicente, na oficina do, já na altura afamado, Mestre Baptista, construtor de todos os instrumentos de cordas existentes em Cabo Verde nos idos 70's, à excepção, obviamente, dos "Made in Outborders".

Oferecida a requinta, guitarra acústica de modelo clássico mas de escala reduzida, nada mais lógico do que enviar o filho para aprender a arte com alguém que acabou por ser responsável por meia Cidade da Praia andar de violão ao peito: Sr. "Pipita" Bettencourt.

Alguns meses mais tarde, perante a constatação de que a música tendia a falar mais alto do que os estudos, o Pai resolveu tirar o Filho querido das aulas de violão.

NATAL DE 1973

Perante uma plateia de papás e mamãs, amigos e colegas de escola e com a adrenalina agora quase nos níveis normais, aventurei-me no segundo tema do "show", uma marchinha de carnaval onde, matreiramente alterei a letra original do poema que dizia "Ó Gabriela, deixa a capela passar" para "deixa o Renato passar", provocando a gargalhada geral no auditório.

Dessa aparição em público restam ainda algumas recordações, não só na minha memória mas também nas memórias de alguns amigos dessa data, com quem ainda tenho o privilégio de privar e tenho o orgulho de saber terem sido testemunhas do meu debutar.

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